16 mulheres brasileiras compartilham como sofreram assédio sexual

"Se você estiver em dúvida se é assédio ou não, acredite, é assédio, ou você não se sentiria violada."

O BuzzFeed Brasil pediu para que leitoras compartilhassem suas histórias com assédio sexual.

Recebemos centenas de depoimentos. Eis alguns deles.

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"Eu não entendia como ele poderia achar que não tinha feito algo errado"

"Acho que a maioria das meninas já foram assediadas um dia, e o pior, nem sempre a gente sabe que foi assédio. Desde meus 10 anos lembro de ouvir de homens mais velhos palavras absurdas sobre o meu corpo.

Mas o pesadelo veio aos 14 anos, numa noite de março. Lembro que tinha ido a uma festa e perdi meu brinco, eu tinha bebido e estava procurando o tal brinco. Quando o namorado de uma amiga minha me viu no banheiro, falou que ia me ajudar a procurar. Mas ele me levou para um quarto, me segurou e me estuprou. Eu lembro de sentir o cheiro do sêmen, o cheiro do sangue, o desespero de gritar e de ter alguém segurando a porta. Claro que não contei para ninguém porque me senti culpada. Senti que meu comportamento me levou àquilo. No dia seguinte, ele me levou uma pílula do dia seguinte.

Passei anos sem falar com ele, eu não entendia como ele poderia achar que não tinha feito algo errado. Depois de muitos anos, em uma festa, ele conversou comigo e eu disse o que sentia, dei nome ao que ele fez comigo: estupro. Mas ele ainda achava que tinha sido um 'lance'. Foi perturbador.

A gente acha que superou, mas sempre que vejo coisas relacionada a abuso, assédio ou estupro, ainda revivo o que aconteceu. Embora já tenham passado anos, ainda lembro de cada detalhe, da dor, de ser desumanizada. Há anos eu queria falar sobre isso, quem sabe consiga achar paz. Obrigada pelo espaço." – Anônima, 29 anos, mulher

"O chefe do meu chefe me chamou para a sala dele e disse 'vem aqui com o titio'"

"Era o meu primeiro emprego na área gráfica e eu buscava dar o meu melhor. Meu chefe era uma pessoa muito generosa e, vendo o meu esforço, me ensinou muito. Comecei a me destacar dentro da empresa, o que atraiu os olhares do dono dela. Ele, chefe do meu chefe, trabalhava ao lado da esposa, que frequentemente ficava fora da empresa. Foi em uma dessas ocasiões que o dono me chamou para a sala dele e disse 'vem aqui com o titio'. A partir daí, sempre que podia, ele tentava me tocar e falar perto do meu ouvido. Pedi para os meus amigos que me ajudassem a encontrar um novo emprego. Assim que encontrei, pedi demissão para o meu chefe e ele me perguntou o motivo. Contei sobre o assédio e ele, muito triste, concedeu a demissão. Hoje trabalho em uma editora que trata os seus colaboradores de forma bastante humana." – Simone, 29 anos, mulher

"Tinha muita vergonha de tudo e todos. Foi terrível"

"Tinha por volta dos 10 anos, sempre brinquei muito na rua, morava em um bairro tranquilo onde todas as crianças brincavam juntas. A gente sempre ia na farmácia beber água, pois era mais perto que a nossa casa na maioria das vezes e sempre tinha o medo de a mãe não deixar ir pra rua de novo.

Um dia o atendente da farmácia me levou para pegar água, falou que eu só iria sair da sala se colocasse a mão na calça dele e fechou a porta. Na hora não entendi nada, comecei a gritar, acho que ele se assustou e eu sai correndo.

Não teve um desfecho, eu era criança, não entendia muito bem das coisas. Nunca contei essa história pra ninguém. Passei dias sem sair na rua e nunca mais voltei na farmácia. Tinha muita vergonha de tudo e todos. Foi terrível. Com o tempo fui deixando isso pra lá, mas nunca mais voltei na farmácia, não passava nem na frente." – Anônima, 25 anos, mulher

"Só me lembrei da 'brincadeira' muitos anos depois"

"Um primo me convenceu que fazer um boquete era uma brincadeira. Eu acreditei. Ninguém sabe, ninguém mesmo, e hoje não deixo meus filhos nem chegarem perto dele. Só me lembrei da 'brincadeira' muitos anos depois e não pretendo tocar nesse assunto com ninguém. Ensinem aos seus filhos que alguém tocar em suas partes íntimas não é brincadeira, ensinem desde cedo que ninguém é autorizado a tocar em lugar nenhum." – Anônima

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"Se eu não falar em voz alta significa que não aconteceu, foi só um pesadelo"

"Desde pequena sempre fui pra praia com minha família, nós temos um apartamento lá e todo o verão eu encontrava as mesmas pessoas de sempre.

Em um verão, meus pais não estavam comigo, eu estava na praia com minhas amigas de noite, quando decidi ir dormir, estava cansada e fui sozinha. Quando cheguei no elevador, um amigo do meu irmão estava lá, ele era bem mais velho do que eu (na época eu tinha uns 17 anos, ele deveria ter uns 27). Não suspeitei de nada já que ele era amigo do meu irmão e me conhecia há muitos anos.

Quando o elevador parou no meu andar, ele me puxou pelo braço e tentou me beijar à força. Eu nunca tinha passado por nada mais assustador na minha vida, senti muito medo, lembro que fiquei sem reação e comecei a implorar para ele parar, enquanto ele me xingava. Depois de um tempo ele desistiu de tentar me beijar, eu corri pro meu apartamento e fiquei dois dias trancada. Depois disso nunca mais voltei pra praia.

Faz dois anos que não vou pra praia e sinto vontade de chorar quando lembro disso. Eu evito contar essa história o máximo possível, poucas pessoas sabem disso. Para seguir em frente eu só tento ignorar o que aconteceu e seguir em frente, se eu não falar em voz alta significa que não aconteceu, foi só um pesadelo." – Ana, 19 anos, mulher

"'Você não pode ignorar um policial', 'você é muito gostosinha', 'isso é desacato'"

"Estava voltando da escola, localizada num lugar que tem uma fama de ser perigoso, por isso a frequência de policiais circulando pela região é normal.

Este dia um policial resolveu me seguir, falando coisas do tipo 'você não pode ignorar um policial', 'você é muito gostosinha', 'isso é desacato', enquanto eu andava apavorada na frente. Ele parou de me perseguir e eu simplesmente sumi do mapa, mas aquilo nunca mais saiu da minha cabeça, foi constrangedor, nojento e repulsivo. Tenho medo de passar por policiais até hoje.

Hoje fica aquele medo, mas felizmente não é nada desesperador. Apenas uma pequena aflição." – Anônima, 19 anos, mulher

"Ele disse que se eu estava na rua andando sozinha é porque eu queria ser estuprada"

"Estava andando em direção ao ponto de ônibus quando um homem que estava dentro de um carro parou para pedir informações. Quando fui responder, acho que ele pensou que era uma boa ideia passar a mão na minha virilha por cima da minha calça. Dei um tapa na mão dele e quando estava indo embora ele começou a me xingar de vadia, puta, disse que se eu estava na rua andando sozinha é porque eu queria ser estuprada. Consegui superar graças a minhas amigas, tirando elas eu nunca tinha falado disso pra mais ninguém. Não foi a primeira vez que sofri algum abuso, mas essa foi a vez que mais fiquei chocada mesmo. E falar com alguém a respeito sempre ajuda a superar." – Anônima

"Não voltei em médico nenhum por um tempo"

"Tinha uns 15, 16 anos e me tratei com um ortopedista para alinhar minha coluna. Num retorno de consulta, estava com a minha mãe e ele pediu para tirar a blusa para me avaliar. Ok, tirei. Ele pediu para eu abaixar as calças. Fiquei sem entender, mas baixei bem pouco, ele pedia 'baixa mais, baixa mais'. A calça já estava na metade da bunda e eu estava super constrangida. Não entendia porque ele precisava ver minha bunda se meu problema era escoliose. Ele pediu para baixar até minha calça estar no meio das coxas. Estava menstruada, fiquei muito constrangida, nem lembro mais o que ele disse no fim da consulta, só queria me vestir e sair dali. Não voltei em médico nenhum por um tempo. Depois passei a me consultar só com mulheres e só beirando aos 30 voltei a me consultar com homens, mas sempre muito de olho a qualquer coisa estranha. Hoje, se não me sentir à vontade, apenas viro as costas e saio." – Anônima

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"Os amigos dele estavam tirando foto no momento do assédio, rindo"

"Estava num show e um cara chegou em mim, me puxou pra dançar. Eu meio que dancei, porque uma amiga minha conhecia ele e eu não queria ser grossa nem mal educada. Eu disse não, educadamente, estava até rindo, estava engraçado o jeito que ele ficava 'investindo', mas ele não me largou, começou a me apertar e me beijou à força, minha irmã chegou a tentar afastar ele de mim, mas ele a empurrou. Me senti péssima com aquilo, ele só cheirava a cigarro e cerveja e quando olhei para o lado os amigos dele estavam tirando foto no momento do assédio, rindo que só. Consegui me soltar dele e sai bem rápido, empurrando quem estivesse na minha frente. Consegui superar, eu já tinha noção de que a culpa em NENHUM momento foi minha." – Anônima

"Eu odiava, mas levava na 'brincadeira', pois não queria perder meu emprego"

"Quando eu tinha 17, 18 anos, trabalhava em uma churrascaria todo final de semana. Odiava, mas como estava precisando de dinheiro pro curso de informática, continuei. Sofria assédio de homens 10, 20, 30 anos mais velhos que eu. Eu odiava, mas levava na 'brincadeira', pois não queria perder meu emprego. Até meu chefe, que era casado, dava em cima de mim, fazendo inúmeros elogios ao meu corpo, e eu tive que permanecer calada, por medo de confrontá-lo, com medo de perder o emprego. Acabei não contando para ninguém e infelizmente carreguei essa raiva durante anos. Depois de alguns meses pedi demissão no local. Isso me deixou bem abalada, mas hoje em dia tento superar, procuro não pensar mais nisso." – Jennifer, 23 anos, mulher

"Ele conseguiu fazer eu me sentir mal mesmo não fazendo nada"

"Quando eu estava no ensino médio, pegava o mesmo ônibus todas as manhãs no mesmo horário. Como era sempre o mesmo motorista, nós nos reconhecíamos de vista. Até que um dia ele pediu meu número, sem nem saber minha idade, e eu não dei. Ele era bem mais velho e ficava olhando para mim pelo espelho do ônibus o tempo inteiro. Minhas amigas não deixaram mais eu pegar ônibus com ele. Sempre que ele passava pelo ponto, ficava me procurando. Eu me senti péssima. Ele conseguiu fazer eu me sentir mal mesmo não fazendo nada. Superei, mas evito andar de ônibus. O olhar dele pra mim era nojento. E ele era assim com todas as meninas de escola." – Anônima, 19 anos

"Quando me virei de costas, ele havia tirado a camisinha e me penetrado desprotegido sem eu saber"

"Eu já ficava com ele há algum tempo. Estávamos em casa sozinhos e resolvemos transar, como de costume. Ele queria sem camisinha e eu não. Ele aceitou fazer com camisinha, mas quando me virei de costas, ele havia tirado a camisinha e me penetrado desprotegido sem eu saber. Eu não quis continuar, mas ele forçou. Saí correndo o mais rápido que pude quando acabou. Ele disse que era pra eu confiar, ele não tinha doenças ou algo do tipo. Mas eu tinha a necessidade de me proteger e de não ser tão vulnerável. Ainda tenho medo. Descobri que homens não são nem um pouco confiáveis." – Mariana, 20 anos

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"Se você estiver em dúvida se é assédio ou não, acredite, é assédio, ou você não se sentiria violada"

"Eu tinha 19 anos e trabalhava pintando quadros junto com um artista plástico na casa dele, onde tinha a presença da mulher dele e filhos. Quando ninguém estava por perto, ele ficava falando que eu era bonita, que gostava de como eu ficava com jeans, perguntando sobre minha vida pessoal, ou me contanto dos casos dele com outras mulheres. Falei pra minha mãe na época e ela não achou que era nada demais. Comecei a usar as roupas do meu irmão mas o assédio não parou.

Um dia falei pra ele que era lésbica pra ver se as investidas paravam, mas foi pior. Ele disse que se eu ficasse com ele eu nunca seria lésbica e que gente gay gosta muito de sexo. Depois disso não voltei mais. Até hoje desconfio de chefes homens. Mas não penso muito sobre isso agora, às vezes nem lembro que aconteceu. Se você estiver em dúvida se é assédio ou não, acredite, é assédio, ou você não se sentiria violada." – Anônima

"O cara não pediu desculpa para mim e sim para os meninos"

"Eu estava em uma festa com os amigos quando um conhecido chegou bêbado. Ele veio falar comigo e eu só cortando, até que ele começou a passar a mão pelo meu corpo e depois por dentro da minha roupa. Dois amigos perceberam e partiram pra cima do cara, que infelizmente não pediu desculpa para mim e sim para os meninos. No começo evitava sair para festas, ficar perto de homens que a todo custo de aproximavam de mim. Agora tenho mais cuidado com minha segurança e das minhas amigas." – Alícia, 21 anos, mulher

"Não foi o primeiro, nem o último abuso. Foi só o mais traumatizante"

"Um 'amigo', ao qual eu já tinha negado investidas sexuais, se ofereceu para cuidar de mim quando eu estava bêbada em um show. Ele me levou pra casa. Mesmo quase inconsciente tentei o fazer parar, mas não consegui. Eu tinha 19 anos e era virgem.

Por medo da repressão dos meus pais quando suspeitei que estava grávida reatei nossa 'amizade'. Quando percebi que não estava, tentei me afastar, mas ele passou a me ameaçar e a minha família, exigindo minha companhia e sexo. Eu não sabia o que era estupro de vulnerável e que a culpa não era minha. Só consegui me afastar dele quando, em uma festa de amigos, neguei suas investidas sexuais e ele me atacou em público. Mesmo assim, não tive coragem de ir a polícia.

Faz 10 anos, mas não consigo confiar em ninguém. Tempo depois tive surtos psicóticos, que só se agravaram após um segundo relacionamento abusivo. Fiz tratamento psiquiátrico, terapia, meditação... Ajuda, mas nunca parou. Eu bebo. Eu procuro ficar sozinha. Eu evito abrir espaço para namoros ou amizades, até família... Deixo todo mundo a uma distância segura. Não foi a única experiência. Não foi o primeiro, nem o último abuso. Foi só o mais traumatizante." – Anônima

"Você não é culpada pelo assédio, você é a vítima"

"Tinha 15 anos, morava na mesma vizinhança há anos, todos na rua se conheciam e sabiam os horários dos outros. O avô de um amigo na época morava perto, era superprestativo, amigo da família e tudo. Ele sabia que a porta não estaria trancada quando meu irmão saiu para trabalhar. Ele sabia que eu estaria dormindo. Acordei com seu corpo em cima de mim. Entrei em pânico, ele tapou minha boca pra eu não gritar. Meu irmão esqueceu algo em casa e voltou. Encontrou ele lutando comigo para tirar minha calcinha, eu era virgem, tinha 15 anos. Até hoje me apavoro de pensar no que aconteceria se meu irmão não tivesse voltado.

Na vizinhança, depois da prisão do cara, EU é que era vagabunda. Eu que usava roupa curta, minha mãe que me deixava sozinha em casa demais (oras, se ela não trabalhasse viveríamos de quê?). Doeu muito mais o que diziam sobre mim do que a própria agressão. Doía porque passei a acreditar que era mesmo a minha culpa. Foi preciso muito tratamento (que consideraram como 'mania de rico') para eu conseguir superar o pânico. O agressor foi preso, mas eu ainda sou considerada no meu antigo bairro (de onde precisei me mudar) vagabunda, fácil e dramática. Fiz tratamento psicológico durante uns anos, mas ainda hoje a dor continua aqui. Se passo na rua e me encaram demais ou fazem comentários grosseiros, tremo por dentro.

Não se culpe, por favor, se viveu isso. Nunca se culpe. Sei que dirão que você 'merecia', que você provocou, mas não caia na armadilha. Não se destrua. Procure apoio, procure ajuda, você não está sozinha. Você não é culpada pelo assédio, você é a vítima, você merece ser cuidada, você merece paz. Eu queria ter ouvido isso quando aconteceu." – Anônima, 23 anos, mulher cis

Se você passar por uma situação de assédio, peça ajuda para alguém de sua confiança, ligue para o 180, a Central de Atendimento à Mulher, que funciona sete dias por semana e 24 horas por dia, ou procure uma Delegacia da Mulher.

Os depoimentos foram editados por questões de clareza e/ou tamanho.

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