16 homens gays e bis contam como é sua relação com futebol

"Eu lembro que não gostar de futebol significava que tinha alguma coisa errada comigo, porque todo homem gosta de futebol."

Há 3 anos

O BuzzFeed Brasil pediu a homens gays e bissexuais que contassem como foi sua relação com o futebol na infância e hoje em dia. Aqui estão as melhores respostas:

O texto pode ter sido alterado para concisão e clareza.

Matrosovv / Getty Images

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1. "Eu lembro que não gostar de futebol significava que tinha alguma coisa errada comigo, porque todo homem gosta de futebol."

"Desde que tenho memória, eu lembro dos meus primos ou dos meninos da escola jogando futebol. Eu era sempre o último a ser escolhido e odiava ter que jogar bola com eles. O engraçado é que, quando eu jogava com as minhas amigas na rua onde eu morava, era bem legal. Acho que era porque eu nunca era julgado e nem era chamado de 'viado' por não saber jogar.

Eu lembro que não gostar de futebol significava que tinha alguma coisa errada comigo, porque todo homem gosta de futebol. Na escola, eu tinha uma professora de educação física que sempre deixava os meninos na quadra de futebol e as meninas na de vôlei. Ela me impedia de ficar com as meninas (que sempre gostei mais) e me obrigava a jogar bola, mesmo sabendo que eu ODIAVA. Aquilo pra mim era como uma sessão de tortura e, se eu saísse da quadra, ela abaixava minha nota.

Eu ainda tinha que ouvir os meninos me chamando de 'viado' toda hora, sem que ela fizesse nada."

- Jonathan, 24, São Paulo/SP

2. "É fácil sentir que o mundo do futebol é um clube do bolinha onde gays são no máximo tolerados e no mínimo motivo de chacota."

"Minhas primeiras experiências com futebol foram mistas. Jogar na escola era sempre ruim, pois o jogo é muito masculino e sempre havia hostilidade dos colegas se você não fosse habilidoso. Essa hostilidade definiu minha aversão ao jogo já pequeno, aos 6 pra 7 anos.

Já entre amigos e familiares, era mais agradável jogar, mas nunca desenvolvi muito gosto. Nunca torci para nenhum time, meu pai nunca fez questão disso e não incutiu em mim essa cultura. No meu caso, o bullying se dava mais pela falta de habilidade no jogo. Independente disso, é fácil sentir que o mundo do futebol é um clube do bolinha onde gays são no máximo tolerados e no mínimo motivo de chacota. Hoje tenho zero interesse e acho o esporte superestimado."

- João Antonio Moraes, 24 anos, Brasília/DF

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3. "O esporte revelou uma paixão desenvolvida por mim nos últimos anos: a narração/locução de futebol."

"Eu nunca pude jogar futebol, pois tenho problemas sérios de saúde que me impedem de fazer muito esforço. Então eu ficava mais assistindo e ouvindo no meu rádio os jogos do meu time, o Palmeiras. Essa experiência era muito positiva, pois me aproximava de algumas pessoas e revelou uma paixão desenvolvida por mim nos últimos anos: a narração/locução de futebol.

A primeira vez em que fui no estádio, eu e meu pai fomos ao antigo Parque Antárctica pra assistir à final da Copa Mercosul de 2000. Apesar de sair chorando porque o verdão perdeu o título pro Vasco, eu fiquei feliz por estar pela primeira vez assistindo meu time de coração pessoalmente. O outro melhor momento foi em 2015, na final da Copa do Brasil no Allianz Parque entre Palmeiras x Santos, no qual meu grande e verde amor saiu campeão pela primeira vez dentro da nova casa.

Quanto ao meu time, eu me apaixono cada vez mais por ele sempre. Nunca o abandonei, nem nos títulos, nem nos rebaixamentos. Gritei e chorei por ele, dei meu sangue e suor e prefiro morrer do que ver o meu time acabar. Futebol não tem gênero. Paixão é universal. Antes até de ser palmeirense, eu sou apaixonado por futebol. Não quero outra vida e sou muito feliz por amar esse esporte."

- Anônimo, 22 anos, São Paulo/SP

Matrosovv / Getty Images

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4. "Eu sofria bullying por ser gay e também por não gostar de futebol e parecia que as duas coisas andavam muito juntas."

"Futebol para mim na infância foi um problema. Eu não era muito bom no esporte, então era sempre deixado por último na seleção do time. E, com aquela mentalidade idiota de educação física que meninas jogam vôlei e caras futebol, eu achava que não era bom em esporte no geral.

Aí, na adolescência, eu descobri o vôlei e tudo mudou. Porque antes disso eu não me sentia parte da galera e nem do esporte em si. Eu sofria bullying por ser gay e também por não gostar de futebol e parecia que as duas coisas andavam muito juntas, sabe? Não era exatamente por ser gay no futebol, porque ser gay era o que me fazia me distanciar do futebol. A real é que eu tinha um pouco de medo de rejeição e da zoeira se eu tentasse falar de futebol ou jogar, então ficava longe mesmo.

Ainda bem que eu preenchi com vôlei a lacuna do futebol.""

- Felipe, 30 anos, São Paulo/SP

5. "No fim do Fla-Flu, bêbado e animado com o placar, me abri com meu irmão."

"Quando criança, eu costumava jogar com os meus primos durante os finais de semana que passávamos reunidos na casa da minha avó. Com o tempo, eles perceberam que eu era diferente, mais afeminado, e fui ganhando alguns apelidos, fui sendo rebaixado, até me tornar gandula. Eu não jogava muito bem, confesso, então fui aceitando meu novo lugar.

Quando fui envelhecendo, acabei me retraindo e ficando um tanto tímido, rejeitando a prática nas aulas de educação física do colégio. E atualmente não jogo mais, mas acompanho. Até hoje estou no armário e poucas pessoas sabem da minha sexualidade. A torcida do meu time na cidade provavelmente não desconfia e, se desconfiasse, talvez sofreria bullying sim.

Em 2012, durante o Brasileirão, comecei a acompanhar os jogos do meu time com o meu irmão mais velho e pudemos nos aproximar, algo que nunca aconteceu, até por ele ser bem mais velho que eu. Foi no fim do Fla-Flu de 30/09 que, bêbado e animado com o placar, me abri com ele - a primeira pessoa com quem falei abertamente sobre minha sexualidade. E eu ouvi que eu era seu irmão independente de qualquer coisa."

- Fred, 26 anos

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6. "É interessante eu nunca ter me sentido confortável para levar meu namorado ao estádio."

"Durante a minha infância, o futebol não foi tão presente. Ninguém na minha casa gostava ou assistia muito. No colégio, eu gostava de jogar, mas nunca fui muito bom. Só comecei a ter contato quando eu tinha 15 anos, através do meu padrasto e de um amigo do meu irmão mais velho. Então comecei a ir em jogos do time da cidade e a acompanhar o Grêmio, time de meu padrasto. Futebol se tornou uma paixão depois disso.

A tradição que tive, durante alguns anos, de ir a praticamente todos os jogos do time local com um grupo de amigos era uma experiência muito boa e da qual sinto falta. Um momento marcante foi quando assisti, na Arena do Grêmio, o jogo contra o LDU pela pré-libertadores em 2013.

Depois de me assumir, alguns conhecidos e amigos de amigos com quem jogava futebol passaram a demonstrar uma vontade de manter certa distância durante as partidas e a me tratar de forma mais fria no geral. Mesmo assim, ainda acompanho o esporte e assisto a diversos jogos, brasileiros ou não, pela TV.

Mas uma coisa interessante é que é o fato de eu nunca ter me sentido confortável para levar meu namorado ao estádio. Seja pela cultura do esporte que tenta mostrar quem é 'mais homem' ou pelos cantos homofóbicos da torcida, nunca tive essa coragem."

- Anônimo, 21 anos, SC

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7. "O principal xingamento para atingir o time rival é 'viado' e isso é claro nas maiores torcidas do futebol brasileiro."

"Em 2010, eu comecei a entender tudo sobre o mundo da bola. Acho que diferentemente do que a maioria dos torcedores falam, sobre já nascer apaixonado pelo clube, o futebol é uma construção que você vai aprendendo ao longo da vida, não é do nada. Uma hora o futebol pode parecer chato, outra hora está uma maravilha.

Não sou assumido e muita gente me acha hétero por gostar de futebol. Mas é evidente que há sim um preconceito no mundo do futebol. O principal xingamento para atingir o seu time rival é 'viado' e isso é claro nas maiores torcidas do futebol brasileiro.

Apesar de existirem muitos jogadores gays e torcedores gays, o futebol é um esporte machista e rola muito preconceito tanto contra gays, como contra mulheres. Eu acho extremamente necessário um debate sobre isso, até porque o futebol é um esporte para todas classes e grupos sociais."

- Flávio, Natal/RN

8. "Sinto-me constrangido de ir pro estádio e ouvir o famigerado grito de 'bicha!' no tiro de meta."

"Minha família próxima é quase toda são-paulina, eu cresci nesse círculo e, provavelmente, torço para o time por causa dessa influência. Em relação à prática do esporte, nunca fui muito habilidoso e sofria um pouco por conta disso, mas nunca fui impedido de praticá-lo.

Assumi minha sexualidade para poucas pessoas. Minha família mesmo, por exemplo, não sabe e, portanto, nunca mexeram diretamente comigo. Mas, sim, sinto-me constrangido ao ir pro estádio e ouvir o famigerado grito de 'bicha!' no tiro de meta ou ao ver meu time ser associado à homossexualidade como se isso fosse demérito.

Dificilmente vou ao estádio hoje e, em parte, creio que isso seja um fator a ser levado em conta. Infelizmente, a desconstrução da ideia de virilidade no futebol me parece distante."

- Anônimo, 26 anos, São Paulo/SP

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9. "Inúmeras vezes perdi a oportunidade de fazer amigos porque eu não tinha interesse nenhum por futebol."

"Eu lembro que me senti forçado a dizer que eu torcia pra um time, antes mesmo das minhas memórias mais antigas. 'Quem não joga ou não gosta de futebol é mulherzinha', eles diziam. Inúmeras vezes perdi a oportunidade de fazer amigos porque eu não tinha interesse nenhum por futebol.

E, por causa das memórias negativas que carrego desde a infância, sinto asco de elementos tradicionais e masculinos da cultura do futebol. Não sinto absolutamente nada de negativo em relação ao esporte, porque esporte nenhum é ruim em essência. Porém, tenho sentimentos profundamente negativos ao ver homens falando de futebol. Se eles estão torcendo, gritando e berrando - eu fico muito irritado."

- Clayton, 31 anos, São Paulo/SP

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10. "Eu sofri bullying da comunidade LGBTQ+ e do mundo do futebol."

"Eu comecei a me interessar na Copa de 1998 e, no mesmo ano, meu time foi campeão brasileiro (Corinthians). A partir daí, com 9 ou 10 anos, eu passei a acompanhar todos os jogos. Mas sinto que sofri bullying da comunidade LGBTQ+ e do mundo do futebol, pois, de um lado, acham que é heteronormativo e, do outro, acham que eu não entendo de futebol.

Vai, Corinthians!""

- Roberto Motta, 29 anos, São Paulo/SP

11. "Eu levei tantas boladas que fiquei com certo medo de bola. Até hoje eu sinto tensão se vem uma bola de futebol na minha direção."

"Um menino no Brasil é praticamente obrigado a torcer por um time de futebol e isso era ainda mais forte na minha família. Meu avô chegou a treinar o Pelé no primeiro time dele em Bauru e isso, óbvio, é motivo de muito orgulho na família. Eu lembro que ele queria muito que os netos jogassem bola.

Hoje eu tenho capacidade de dizer que não torço para time nenhum, mas, durante muito tempo, mesmo na vida adulta, eu me via obrigado a falar um time, mesmo que não acompanhasse muita coisa sobre ele.

Na educação física na escola, como os meninos sempre eram ensinados a serem muito competitivos, principalmente com futebol, sempre foi muito difícil me inserir. Não era diversão, era quase um teste de masculinidade cada vez que eu tinha que jogar futebol. Tudo era motivo para brigarem comigo ou rirem da minha cara.

Com o tempo, passaram a só me colocar como goleiro e lá você está sujeito a boladas intencionais, ou não. Eu levei tantas boladas que fiquei com certo medo de bola. Até hoje eu sinto tensão se vem uma bola de futebol na minha direção. Eu não sei se havia a consciência de eu ser gay naquela época, mas era evidente que eu não era igual àquele grupo de meninos que respirava futebol, e isso bastava para virar chacota.

Hoje eu não gosto de futebol e detesto coisas competitivas, não assisto nem Copa do Mundo, nem Olimpíadas. Não gosto da gritaria e do excesso de palavrões, de ter que diminuir o rival, seja lá por qual motivo."

- Ábiner Augusto, 34 anos, Águas Claras/DF

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12. "Comecei a andar mais com as meninas do meu colégio e fui me afastando do esporte, chegando a faltar aulas, fingir doença."

"Meu pai sempre foi fã de futebol e torcedor roxo do Palmeiras. Mas minhas primeiras memórias com o esporte são de jogar nas aulas de educação física do colégio, já que eu nunca tive muita companhia pra jogar em casa.

É um sentimento meio ambivalente... eu era até bom no jogo, porque sempre fui grande e, ao mesmo tempo, enquanto fui crescendo e percebendo mais sobre a minha sexualidade, fui percebendo que o ambiente era bastante hostil em relação a meninos afeminados. Apesar de ainda estar no armário, sofri algumas agressões verbais. Com isso, comecei a andar mais com as meninas do meu colégio e fui me afastando do esporte, chegando a faltar aulas, fingir doença.

Quando eu completei 15 anos, fui a um jogo do Palmeiras no Parque Antárctica e meu pai comprou uma camiseta do time pra mim. Foi um momento gostoso ver meu pai feliz do time ganhar em casa, tanta gente reunida. Naquela época, eu ainda não tinha a consciência de problematizar algumas das coisas que ocorriam à minha volta, então foi bem mais fácil de aproveitar.

Hoje não torço para nenhum time específico, acompanho alguns jogos na época de Copa do Mundo, mas não sofro por futebol. Teria medo de ir a um estádio novamente."

- Lucas, 21 anos, São Paulo/SP

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13. "As pessoas sabiam que eu amava futebol desde sempre e que não era um artifício para 'enganar' as pessoas sobre minha orientação."

"Eu sempre tive contato muito próximo com o esporte e acho que comecei a praticar com 5 anos de idade. Fiz natação durante a infância, mas o futebol e o vôlei sempre foram meus preferidos. Joguei pelo meu colégio em ambas as modalidades durante muitos e muitos anos. Depois de sair do colégio e da faculdade, eu continuei jogando as peladas esporadicamente. A verdade é que o esporte, principalmente o futebol, sempre foi um dos centros ao redor do qual gira a minha vida.

Na verdade, eu só me assumi bissexual com 20 anos, então, durante muito tempo, estes eram dois mundos absolutamente distintos e que eu fazia questão de separar. Seja por medo, seja por conveniência. Inocentemente, eu achava que eram culturas que não se conversavam, ou acreditava que era melhor assim mesmo. A faculdade me ajudou a mudar isso e, mesmo depois de assumido, eu não tive problemas. Até porque, as pessoas já tinham uma imagem formada sobre mim e sabiam que eu amava futebol desde sempre; não era apenas um artifício para 'enganar' as pessoas sobre minha orientação.

Então eu entendi, ao contrário do que imaginava antes, que não se tratam de dois mundos que não se conversam. Infelizmente, eu sei que sou exceção, mas também sou prova de que a reunião desses dois mundos é mais do que possível, é massa!"

- Henrique, 24 anos, Recife/PE

14. "Eu era disparado o pior do time e o professor não tinha paciência para me ensinar."

"Quando eu tinha 7 anos, eu entrei para uma escolhinha de futebol. Eu era disparado o pior do time e o professor não tinha paciência para me ensinar - ele apenas tinha olhos para os melhores. Eu lembro até hoje de uma atividade em que eu tinha que chutar a bola por cima de uns cones. Eu fui o único que não conseguiu e me senti horrível naquele dia.

Eu tenho um irmão gêmeo, então, depois disso, e todas as outras vezes em que eu tinha que jogar futebol, eu jogava no gol e pedia para ele não deixar a bola chegar em mim. E foi assim que sobrevivi quando não tinha a opção de não jogar.

Eu acredito que, mesmo antes de me dar conta de que eu era gay, eu sempre tive um jeito mais afeminado e diferente dos outros meninos que jogavam comigo. Penso que foi por isso que o professor não tinha paciência para me ensinar. Acho que, por isso, hoje não gosto e nem acompanho futebol."

- Anônimo, 16 anos, São Leopoldo/RS

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15. "Eu acompanho os jogos do meu time do coração sempre que posso, porém evito assistir jogos em estádio."

"Por ter vivido uma infância relativamente normativa, minha relação com o futebol foi positiva. Por influência do meu pai, adotei um time do coração e o acompanhei com certo interesse, chegando a ir com ele aos estádios. Durante a adolescência, porém, me afastei do esporte e daquela comunidade por causa da hostilidade com pessoas gays, justamente na época em que eu estava me descobrindo.

Eu só voltei a acompanhar futebol quando adulto. Pra mim, o futebol é uma excelente ferramenta de união. Graças a ele, minha relação com meu pai voltou a se fortalecer após eu ter saído do armário. Graças a ele, pude fazer amizades e criar uma bela coleção de pequenos bons momentos que reforçam meu amor pelo esporte. Hoje acompanho os jogos de meu time do coração sempre que posso, porém evito assistir jogos em estádio."

- Anônimo, 25 anos, São Paulo/SP

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